Considerações sobre a celebração da morte de Cristo

Vamos considerar neste artigo, a maneira em que as Testemunhas de Jeová entendem e se comportam na questão da celebração da morte de Cristo (Ceia do Senhor). Sim, para mim esse é um dos assuntos mais importantes a chamar atenção, por que o que a Torre de Vigia faz não é nem um pouco saudável para aqueles que se consideram cristãos. A maneira como a Torre de Vigia ensina esse assunto pode deixar você pensando: como uma religião tão atrativa faz uma coisa dessas? Por que seus membros aceitam tal conceito? Vamos considerar ponto a ponto e ver por que as TJs caem numa armadilha camuflada.

Nota: este artigo está totalmente baseado no livro: As Testemunhas de Jeová e a comemoração da morte de Cristo, de Miguel Servet Jr. Disponível para download neste link: www.mentesbereanas.org/download/tjecomemoracao3ed.pdf

‘’UM PACTO PARA UM REINO’’

Quando as publicações da Torre de Vigia defendem o ensino de que somente alguns devem participar do pão e do vinho, muitas vezes dirigem a atenção dos leitores para os acontecimentos da última páscoa que Jesus celebrou na terra, momento em que instituiu a ceia comemorativa de sua morte.

 

Raciocínios à Base das Escrituras, página 88:

Quem deve participar do pão e do vinho?

Quem participou quando Jesus instituiu a Refeição Noturna do Senhor pouco antes de morrer? Onze seguidores fiéis aos quais Jesus disse: “Eu faço convosco um pacto, assim como meu Pai fez comigo um pacto, para um reino.” (Luc. 22:29) Todos eles eram pessoas que estavam sendo convidadas a participar com Cristo no seu Reino celestial. (João 14:2, 3) Todos os que participam hoje do pão e do vinho devem também ser pessoas a quem Cristo introduz nesse ‘pacto para um reino’.

 

A Sentinela de 15 de fevereiro de 1990, página 19:

16 Na noite em que Jesus instituiu a Refeição Noturna do Senhor, ele disse a seus apóstolos leais que ele lhes estava preparando um lugar no céu. (João 14:2, 3) Lembre-se, porém, que Jesus disse também que aqueles que tomassem do pão e do copo estariam em Seu Reino e se sentariam em tronos para julgar. Seriam estes apenas os apóstolos? Não, pois mais tarde o apóstolo João ficou sabendo que outros cristãos também venceriam e ‘se sentariam com Jesus em Seu trono’, e que juntos se tornariam ‘um reino e sacerdotes para governar sobre a terra’. (Revelação 3:21; 5:10) João foi informado também do número final de cristãos que são “comprados da terra” — 144.000. (Revelação 14:1-3) Visto ser este um grupo relativamente pequeno, um “pequeno rebanho” em comparação com todos os que adoraram a Deus ao longo das eras, é necessário discernimento especial na época da Comemoração. — Lucas 12:32.

 

 

Muitas pessoas aceitam estas declarações grifadas sem conferir o relato. (Provérbios 14:15) Uma vez que, como base para estes ensinos, estas publicações chamam atenção para os eventos da primeira comemoração, vale a pena revermos o que ocorreu naquela ocasião. Antes, devemos frisar o seguinte: Nenhum cristão duvida que Jesus tenha feito um “pacto para um reino” com seus apóstolos fiéis. Lucas 22:29 afirma isso diretamente. Nem é questionável a ideia de que outros seriam incluídos neste mesmo “pacto”. A Bíblia também permite esta conclusão. Mas será que Jesus relacionou o pão e o vinho da comemoração com esse “pacto para um reino”, como afirmam as duas publicações acima? Disse ele realmente que todos os que participassem do pão e do vinho estariam automaticamente incluídos nesse pacto e iriam para o céu?

Examinando o relato

Embora haja quatro versões independentes do que ocorreu na noite da última páscoa, os evangelistas Mateus, Marcos e João dão mais ênfase ao que ocorreu após a instituição da nova celebração. Lucas é o único que especifica detalhadamente o que Jesus disse em ambas as celebrações. A consideração das palavras dele é vital para nosso entendimento. O relato encontra-se em Lucas 22:14-30. Recomendamos fortemente uma leitura na íntegra destes versículos. Eles podem ser divididos assim:

Versículos 14 a 18: Jesus comemora a Páscoa com os apóstolos;

Versículos 19 e 20: Jesus institui a comemoração de sua morte;

Versículos 21 a 27: Os apóstolos discutem e Jesus os repreende;

Versículos 28 a 30: Jesus faz com eles o “pacto para um reino”.

A leitura desse relato, por si só, já desautoriza o que a Sentinela disse acima. Jesus distribuiu o pão e o vinho aos seus apóstolos e mais tarde naquela noite, fez com eles o “pacto para um reino”. Mas ele não fez ligação deste “pacto para um reino” com a participação no pão e no vinho, e nem disse que os que participassem nesses alimentos estariam em seu reino celestial. As palavras dele, conforme constam em Lucas 22:20, foram:

“Do mesmo modo também o copo, depois de terem [tomado] a refeição noturna, dizendo: “Este copo significa o novo pacto em virtude do meu sangue, que há de ser derramado em vosso benefício.”

Ele falou sobre um ‘novo pacto em virtude do seu sangue’. No relato correspondente de Mateus 26:28 encontramos a expressão “sangue do pacto”. Naquele momento Jesus não disse qualquer palavra sobre “reino”. Só se ele tivesse usado a expressão “sangue do pacto para um reino” é que a ideia apresentada na Sentinela estaria além de questionamento. O máximo que se pode tirar do relato é que Jesus relacionou o pão e o vinho com este “novo pacto” e foi só num momento posterior (após as duas discussões entre os apóstolos) que ele fez o “pacto para um reino” com os que estavam presentes. Apesar disso, a organização Torre de Vigia insiste que há uma conexão entre os alimentos e esse “pacto para um reino”, uma vez que, ao fazer o pacto, Jesus acrescentou as seguintes palavras que aparecem em Lucas 22:30:

“… a fim de que comais e bebais à minha mesa, no meu reino, e vos senteis em tronos para julgar as doze tribos de Israel.”

‘Assim’, ensinam os líderes da Torre de Vigia, ‘como os apóstolos haviam acabado de comer e beber na refeição, Jesus quis dizer que todos os que comem o pão e bebem o vinho estarão também nessa “refeição” à mesa dele, e ‘sentados em tronos’ no céu’. Embora para muitos esta ideia pareça bem convincente, ela é resultado de uma leitura parcial do relato. Quando tratam desse assunto, as publicações da Torre de Vigia só dão ênfase a estas palavras do versículo 30, mas não chamam a atenção dos leitores para o fato de que Jesus já tinha mencionado essa “refeição celestial” antes de instituir a celebração de sua morte. E ele a relacionou, não com esta celebração, e sim, com a Páscoa judaica. Mais uma vez, o relato de Lucas capítulo 22, versículos 14 a 18 ajuda-nos a entender isso. Tratando da celebração da Páscoa, as palavras são:

Por fim, quando chegou a hora, recostou-se à mesa, e os apóstolos com ele. E ele lhes disse: “Desejei muito comer esta páscoa convosco antes de eu sofrer; pois, eu vos digo: Não a comerei de novo até que se cumpra no reino de Deus.” E, aceitando um copo, deu graças e disse: “Tomai isto e passai-o de um para outro entre vós; pois, eu vos digo: Doravante não beberei mais do produto da videira até que chegue o reino de Deus.

Note-se que ele falou isso em conexão com os alimentos da Páscoa. Até aí, ele ainda não havia introduzido a nova celebração. O que disse ele?

  • Que ‘a Páscoa se cumprirá no reino de Deus’;
  • Que ele ‘só voltará a comê-la e beber vinho no reino de Deus’.

Acrescente-se a isso o seguinte detalhe relevante: Ao passo que o relato torna evidente que Jesus comeu dos alimentos da Páscoa, torna claro também que ele não comeu o pão nem bebeu o vinho que usou para instituir a comemoração de sua morte. Recordemos as palavras do versículo 22: “Doravante não beberei mais do produto da videira até que chegue o reino de Deus”. Já que ele disse isso no momento da Páscoa, fica claro que ele não tomou o vinho que usou para instituir a nova celebração. Apenas distribuiu os alimentos aos apóstolos, mandando que comessem e bebessem.

Se, de acordo com o ensino da Torre de Vigia, a participação no pão e no vinho significa que a pessoa estará naquela refeição simbólica no reino celestial, não teria sido lógico Jesus participar deles? Como poderia Jesus convidar outros para ‘comer e beber à sua mesa no seu reino’, e ele mesmo não participar da refeição? Ele não havia acabado de dizer que ‘comeria e beberia quando chegasse o reino de Deus’?

Para serem coerentes, portanto, os líderes da Torre de Vigia deveriam aplicar sua regra – e com ainda mais força – a todos os que participavam da Páscoa judaica. Pois Jesus disse que a Páscoa é que ‘se cumprirá no reino de Deus’ e os alimentos e o vinho dela é que serão ‘servidos’ lá. Ele não disse isso sobre a comemoração de sua morte e sobre o pão e o vinho usados nesta. Será que devemos entender então que os milhões de judeus da antiguidade, que comiam os alimentos e bebiam o vinho da Páscoa, estarão também no reino celestial, ‘participando à mesa’ de Cristo? Para o esquema doutrinário da organização Torre de Vigia, essa simples ideia é inconcebível. Por isso eles só aplicam sua regra à participação nos alimentos da comemoração, mas não nos da Páscoa.

O motivo básico de o ensino da Torre de Vigia gerar estas questões, é que ele é especulativo, indo além do que o relato declara. Pois o fato simples é que, nem no caso da Páscoa judaica, nem no caso da celebração cristã a participação nos alimentos tem um significado além daquele que a Bíblia define. No decorrer daquelas celebrações, Jesus realmente falou em dois momentos sobre esse “banquete” no céu, mas ele não disse que todas as pessoas que participassem dos alimentos usados em ambas, estariam automaticamente convidadas. No primeiro momento, ele falou apenas de si mesmo como participante da “refeição” no céu. Depois, quando fez o “pacto para um reino” com seus apóstolos, declarou que eles também estariam lá, ‘comendo e bebendo à sua mesa’.

Esteve Judas Iscariotes presente na primeira celebração?

Há quem defenda que Judas estava presente no momento em que Jesus distribuiu o pão e o vinho, assim como há os que defendem o contrário, ou seja, que Judas deixou o local antes disso. Se ele esteve presente ou não, isso é irrelevante. Mesmo assim, na discussão que segue será mostrado por que isto é pertinente ao assunto tratado aqui.

A razão principal por que não podemos ser taxativos, é que nenhum dos quatro relatos evangélicos especifica o momento exato em que Judas Iscariotes deixou o local. Mateus e Marcos colocam a discussão sobre a traição, bem como o diálogo de Jesus com Judas em algum momento anterior à celebração (Mat 26:21-29; Mar 14:18-21), ao passo que Lucas coloca isto num momento posterior (Luc 22:19-23). E estes três evangelistas não fazem menção alguma à saída dele. João é o único que faz isso (João 13:21-30), mas ele não diz se Judas saiu antes ou depois da distribuição do pão e do vinho, até porque, diferente dos outros evangelistas, ele nem fala sobre essa distribuição em seu relato.

A liderança da Torre de Vigia defende que Judas saiu antes. Para tentar harmonizar esta ideia com o relato de Lucas, a publicação Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume 2, página 618, oferece a seguinte explicação:

Judas deixou imediatamente o grupo. Uma comparação entre Mateus 26:20-29 e João 13:21-30 indica que ele partiu antes de Jesus instituir a celebração da Refeição Noturna do Senhor. A apresentação deste incidente por Lucas evidentemente não segue uma estrita ordem cronológica, porque Judas definitivamente já havia partido quando Cristo elogiou o grupo por ter ficado com ele; isto não se ajustaria a Judas, nem teria ele sido incluído no ‘pacto para um reino’. — Lu 22:19-30.

Todavia, essa comparação entre Mateus 26:20-29 e João 13:21-30 não dá qualquer indicação clara que Judas tenha saído antes da celebração. Como já foi declarado, os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas nem sequer mencionam que ele deixou o grupo em algum momento. Além disso, a comparação das versões permite até a conclusão de que Jesus teria identificado quem seria o traidor mais de uma vez naquela noite (Compare Mateus 26:23 com João 13:26. Note que a identificação do traidor é feita de maneira diferente nos dois relatos.) O que o Corpo Governante faz aqui é uma mistura de contextos diferentes de evangelhos diferentes.

Ademais, esta hipótese de que “Lucas não seguiu uma estrita ordem cronológica” não tem força alguma. Embora a publicação diga que isso é ‘evidente’, não se apresenta qualquer prova. Eles estão afirmando isso do evangelista que dá mais indicações de ter “pesquisado todas as coisas com exatidão” e ter apresentado os fatos relacionados com Cristo “em ordem lógica” (Luc 1:3). É bem mais provável que o metódico e detalhista Lucas, e não Mateus tenha seguido uma estrita ordem cronológica em sua narrativa.

A publicação acima reflete a confusão dos assuntos que os líderes da Torre de Vigia fazem. Como já enfatizamos a distribuição do pão e do vinho, bem como a menção ao “novo pacto”, ocorreu num determinado momento. O ‘elogio’ de Cristo ao grupo, bem como o estabelecimento do “pacto para um reino” ocorreram num momento posterior.

Ter em mente esta sequência de acontecimentos dá margem à conclusão de que Judas Iscariotes não estava mais presente quando Jesus elogiou os apóstolos e fez com eles o “pacto para um reino”. É mesmo difícil imaginar que Jesus celebrasse esse pacto com um homem que ele sabia que o estava traindo há algum tempo. (João 6:64). Mas isto não impede que Judas tenha estado presente quando Jesus distribuiu o pão e o vinho e tenha saído no intervalo de tempo entre essa distribuição e o momento em que Jesus fez o “pacto para um reino”. Se foi assim que ocorreu, então o relato de Lucas é que está realmente seguindo uma ordem cronológica exata. Embora não queiramos ser dogmáticos, isto é um argumento adicional em favor da ideia de que a participação no pão e no vinho nada teve que ver com o “pacto para um reino”, pois embora Judas Iscariotes possa ter participado dos alimentos, ele não foi incluído neste pacto.

Por que o ‘’pacto para um Reino’’ foi celebrado?

Esse ‘elogio’ que Jesus fez aos apóstolos esclarece o motivo básico disso. As palavras (registradas em Lucas 22:28,29) são:

“No entanto, vós sois os que ficastes comigo nas minhas provações; e eu faço convosco um pacto, assim como meu Pai fez comigo um pacto, para um reino,”

Portanto, a razão que Jesus apresentou para a concessão desse privilégio a eles foi não o fato de terem participado do pão e do vinho (pois isso nem entrou na discussão), e sim o fato de aqueles homens ‘terem ficado com ele em suas provações’ (durante o período de seu ministério terrestre e até aquele momento). Em contraste com isso, o trecho de Lucas 22:19, 20 torna claro que o significado do pão e do vinho da celebração cristã relaciona-se unicamente ao corpo e ao sangue de Cristo, dados em sacrifício, para possibilitar o “perdão de pecados”. Jesus, como cumpridor da lei, comemorou a Páscoa e participou dos alimentos dela, mas não participou do pão e do vinho da celebração que instituiu. Já que ele não tinha pecados que precisassem ser perdoados, não haveria o menor sentido em ele simbolicamente comer o seu próprio corpo e beber seu próprio sangue.

Quem estabelece esta conexão forçada entre a participação na celebração e a herança do reino celestial são os líderes da Torre de Vigia. Isto é resultante de desconsiderarem o contexto do relato, extraindo um significado que não está lá. Como mostrado na Sentinela de 15 de fevereiro de 1990 (citada acima), eles chegam ao ponto de colocar indevidamente palavras na boca de Cristo, afirmando que ele “disse” algo nesse sentido, quando na verdade o próprio Jesus não fez qualquer ligação de uma coisa com a outra.

O ‘’NOVO PACTO’’ (OU NOVA ALIANÇA)

Como vimos, além desse “pacto para um reino”, Jesus fez referência a um “novo pacto”, e este sim foi relacionado com a celebração. Estabelecemos biblicamente o seguinte: Quando instituiu a comemoração de sua morte, Jesus não relacionou o pão e o vinho com o “pacto para um reino” e sim com o “novo pacto”.

O que é um “pacto”? Basicamente é um acordo feito entre duas ou mais partes. Estas “partes” podem ser indivíduos ou grupos de pessoas e o acordo pode ser verbal ou escrito. Vários são os sinônimos de “pacto”. Além da palavra “acordo”, é costumeiro o uso das palavras “contrato” e “tratado”. Em várias traduções da Bíblia aparecem também as palavras “aliança” e “concerto”.  Independentemente da palavra que se use, o importante é que, quando um acordo é feito, ambas as partes impõem a si mesmas uma ou mais obrigações e ambas desfrutam de um ou mais benefícios decorrentes do acordo. É sempre assim, não importa qual seja a natureza do acordo. E não é diferente no caso dos “pactos” mencionados na Bíblia.

Iremos usar a palavra “pacto”, uma vez que é a usada na Tradução do Novo Mundo, a versão oficial da organização Torre de Vigia. Assim, em lugar das expressões “novo concerto” ou “nova aliança”, que aparecem em outras versões bíblicas, usaremos sempre a expressão equivalente, “novo pacto”. O que ensina a organização Torre de Vigia sobre este “novo pacto”? Entre as muitas referências existentes nas publicações, temos esta:

A Sentinela de 1º de fevereiro de 1998, página 19, parágrafo 3:

3 Para os 144.000, a bênção do pacto abraâmico é administrada por meio do novo pacto. Sendo participantes deste pacto, eles estão “debaixo de benignidade imerecida” e “debaixo de lei para com Cristo”. (Romanos 6:15; 1 Coríntios 9:21) Portanto, apenas os 144.000 membros do Israel de Deus têm corretamente participado dos emblemas durante a Comemoração da morte de Jesus, e foi somente com eles que Jesus fez o seu pacto para um Reino. (Lucas 22:19, 20, 29) Os membros da grande multidão não participam neste novo pacto. No entanto, estão associados com os do Israel de Deus e vivem com eles na “terra” deles. (Isaías 66:8) Por isso é razoável dizer que eles também estão debaixo da benignidade imerecida de Jeová e debaixo da lei para com Cristo. Embora não participem no novo pacto, são beneficiados por ele.

Portanto, de acordo com essa Sentinela, não é somente o “pacto para um reino” que se aplica apenas aos 144.000. Este é o caso do “novo pacto” também. Apenas os 144.000 são “participantes” dele. Todos os demais estão fora, sendo apenas “beneficiados”. E como Jesus fez uma conexão direta entre este “novo pacto” e o vinho da comemoração, isso ajuda a Torre de Vigia a manter o ensino de que apenas os 144.000 podem participar dos alimentos simbólicos usados nela.

Para começar, temos um problema de definição aqui. Conforme mostramos acima, todo e qualquer pacto exige necessariamente que ambas as partes assumam obrigações mútuas e colham benefícios decorrentes. Caso estas condições não sejam satisfeitas, o pacto simplesmente não existe. Se a Sentinela está dizendo que o “novo pacto” é feito apenas entre Deus e os 144.000, isso significa que apenas estes têm obrigações para com Deus, e seriam apenas eles os beneficiados. Uma vez que a “grande multidão” está fora do pacto, nenhuma pessoa desse grupo teria qualquer obrigação para com Deus e nem usufruiria de qualquer benefício. É contraditório, pois, o parágrafo dizer que a “grande multidão” está ‘sob a lei do Cristo’, ‘debaixo da benignidade imerecida de Jeová’, e na condição de ‘beneficiada’ pelo pacto. Tudo isso só seria verdade se a “grande multidão” fosse também participante do pacto.

Pelo que se nota, a organização Torre de Vigia parece ter elaborado um conceito diferente de “pacto”. Milhões de leitores que aceitam essa informação da Sentinela deixam de perceber que a essência da definição do termo está sendo desconsiderada. É impossível citar um único exemplo (bíblico ou não), em que uma pessoa (ou seus herdeiros e sucessores) tenha sido beneficiada por um pacto, sem ser participante dele. Mas este aspecto semântico é só uma pequena parte do problema. Muito mais importante do que isso é a seguinte questão: Existe fundamento bíblico para a ideia de que só os 144.000 são participantes do “novo pacto”?

A própria Bíblia esclarece por que Jesus se referiu a esse pacto deste modo. Se ele falou em “novo pacto”, é porque existiu um pacto anterior. Esse anterior foi o pacto estabelecido entre Deus e os judeus da antiguidade. Uma análise da situação dos que estavam naquele pacto é muito esclarecedora.

O pacto feito entre Deus e a nação de Israel

Assim como o “novo pacto”, o anterior teve um mediador (Gálatas 3:19; Hebreus 8:6), e foi validado com sangue (Êxodo 24:8; Lucas 22:20). E quanto ao número de pessoas que faziam parte daquele pacto anterior? Moisés esclarece isso em Deuteronômio 5:1-3:

E Moisés passou a chamar todo o Israel e a dizer-lhes: “Ouve, ó Israel, os regulamentos e as decisões judiciais que hoje falo aos vossos ouvidos, e tendes de aprendê-los e cuidar em cumpri-los. Jeová, nosso Deus, concluiu conosco um pacto em Horebe. Não foi com os nossos antepassados que Jeová concluiu este pacto, mas conosco, todos os que hoje aqui estamos vivos.”

De imediato, fica claro o seguinte: O pacto estava sendo celebrado entre Deus e todos os judeus. Todos os milhões de judeus ‘que estavam ali, vivos’ eram participantes. Mas quais seriam as vantagens deste pacto para eles? Êxodo 19:5, 6, responde:

E agora, se obedecerdes estritamente à minha voz e deveras guardardes meu pacto, então vos haveis de tornar minha propriedade especial dentre todos os [outros] povos, pois minha é toda a terra. E vós mesmos vos tornareis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.’ Estas são as palavras que deves dizer aos filhos de Israel.”

Embora seja claro que estas palavras teriam aplicação em todas aquelas pessoas, a organização Torre de Vigia faz uma leitura bem diferente. Vejamos como se expressa A Sentinela de 1º de fevereiro de 1989, página 13:

18 Ao fazer o pacto temporário, Deus também mencionou o seguinte objetivo emocionante: “Se obedecerdes estritamente à minha voz e deveras guardardes meu pacto, então vos haveis de tornar minha propriedade especial. . . E vós mesmos vos tornareis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.” (Êxodo 19:5, 6) Que perspectiva! Uma nação de reis-sacerdotes. Mas, como seria isso possível? Como a Lei mais tarde especificou, a tribo governante (Judá) e a tribo sacerdotal (Levi) receberam responsabilidades diferentes. (Gênesis 49:10; Êxodo 28:43; Números 3:5-13) Nenhum homem poderia ser tanto governante civil como sacerdote. Ainda assim, as palavras de Deus em Êxodo 19:5, 6 forneciam motivo para se crer que de alguma maneira não revelada, os que estavam no pacto da Lei teriam a oportunidade de prover os membros de “um reino de sacerdotes e uma nação santa”.

Observe, “de alguma maneira não revelada”. Com certeza não houve qualquer “revelação” que dê apoio a esta hipótese! O que este parágrafo da Sentinela declara, está em contradição direta com tudo o que os textos dizem. Em primeiro lugar, Moisés não falou em “uma nação de reis-sacerdotes”. As palavras que ele usou foram “reino de sacerdotes e uma nação santa”. O que ele destacou foi o aspecto da pureza espiritual, e não propriamente a questão do poder régio. Os exemplos seguintes podem nos ajudar a entender o significado dessas palavras:

Quando dizemos que “a Grécia foi um império de filósofos”, ou então “a Fenícia foi um reino de grandes navegadores”, o que estamos fazendo é destacar características marcantes desses povos. As palavras “reino” e “império” não são usadas aqui para destacar o sistema de governo que estas nações tinham e nem sugere que todos os cidadãos destas nações eram “reis” ou “imperadores”. Assim foi com esta expressão de Moisés. Ele não disse que todos aqueles judeus se tornariam “reis” ou “governantes civis”, caso obedecessem. Mas assegurou que Deus os consideraria como um “reino de sacerdotes” e uma “nação santa”.

Até mesmo a questão de saber quantos sacerdotes existiria entre eles é irrelevante. Os mesmos exemplos acima elucidam isso. Dizer que a Grécia foi um “império de filósofos”, não significa que todos os gregos eram filósofos. E nem todos os fenícios foram “grandes navegadores”. Mas tais nações se destacaram nestas características. Da mesma maneira, se os judeus fossem fiéis ao pacto, eles se destacariam como um “reino de sacerdotes” e uma “nação santa” diante de Deus.

Outra coisa que a Sentinela afirma é que quando Deus disse isso, Ele tinha a ideia de tirar dentre aqueles judeus que estavam no pacto, os “membros” de um “reino de sacerdotes e uma nação santa”. Segundo o entendimento da organização, esse número de “membros” é literal, ou seja, 144.000 e são os mesmos que se diz que irão para o céu governar ao lado de Cristo. A Sentinela de 1º de setembro de 2000, confirma que é este mesmo o entendimento da organização sobre estas palavras de Moisés. Diz a revista, na página 21:

13 Os do Israel natural poderiam ter fornecido o pleno número dos que participariam com o Messias no seu Reino celestial como um reino de sacerdotes e uma nação santa. Mas eles não deram valor à sua preciosa herança. Apenas um restante de israelitas naturais aceitou o Messias quando este chegou. Em resultado disso, apenas um pequeno número deles foi incluído no predito reino de sacerdotes. O Reino foi tirado do Israel natural e ‘dado a uma nação que produz os seus frutos’. (Mateus 21:43)

É válido esse raciocínio? De forma alguma! Essa Sentinela condiciona o ‘fornecimento desse pleno número do reino de sacerdotes’ (144.000, segundo ensina a organização) com a ‘aceitação do Messias quando este chegou’. Mas não foi isso que Moisés disse. As palavras de Deuteronômio 5:1-3 são claras: “Ouve, ó Israel, os regulamentos e as decisões judiciais que hoje falo aos vossos ouvidos, e tendes de aprendê-los e cuidar em cumpri-los.” Moisés disse que a condição para aqueles judeus se tornarem um “reino de sacerdotes e uma nação santa” era a ‘obediência estrita’ àquele pacto que estava sendo celebrado e não a ‘aceitação do Messias’. O Messias só veio 1.500 anos depois.

Além do mais, quando a Sentinela fala em “predito reino de sacerdotes”, dá-se a entender que Moisés estava fazendo uma “predição” de algo futuro. Novamente não foi isso que ele disse. Ele falou em termos bem claros: “E vós mesmos vos tornareis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.’” Isso significa simplesmente que, se aqueles judeus que estavam ouvindo as palavras dele se mantivessem fiéis ao pacto, tais palavras passariam a ter aplicação neles mesmos. Moisés não estava restringindo a aplicação dessas palavras a pessoas que viveriam no futuro. E nem estava sugerindo que tais palavras teriam aplicação a um número limitado de pessoas. Os milhões que estavam ali “vivos” naquele exato momento já seriam “um reino de sacerdotes e uma nação santa”. E enquanto elas (e seus descendentes) se mantivessem fiéis ao pacto, tais palavras continuariam valendo.

Além disso, a afirmação da Torre de Vigia, no sentido de que os judeus ‘não conseguiram completar’ nem sequer um número de 144.000 fiéis é altamente improvável. Por que dizemos isso? Consideremos duas hipóteses:

Suponhamos que a Torre de Vigia estivesse certa quanto ao número de componentes desse “reino de sacerdotes” (segundo a organização entende esse termo), os quais, segundo eles, os judeus ‘poderiam ter fornecido’. Surgiria a seguinte pergunta: Será que durante esses 1.500 anos em que o pacto vigorou, e em meio a tantos milhões de judeus que viveram e morreram no decorrer desse tempo, o número de fiéis foi inferior a 144.000?

Vamos ainda mais longe: Suponhamos que a Torre de Vigia estivesse certa nas duas ideias, a saber, (1) que ser parte do “reino de sacerdotes e nação santa” dependia da “aceitação do Messias” e (2) que pelo menos 144.000 pessoas deveriam aceitá-lo, para se completar o número de “membros” desse reino. Ainda assim surgiria uma pergunta semelhante à expressa no parágrafo acima. Qual?

A Sentinela diz que “apenas um restante de israelitas naturais aceitou o Messias quando este chegou. Em resultado disso, apenas um pequeno número deles foi incluído no predito reino de sacerdotes.” Ora, isto pode ser verdade no caso dos judeus que estavam vivos na época da chegada de Cristo. A maioria o rejeitou mesmo. Mas e os milhões e milhões de judeus que viveram e morreram nas gerações anteriores à chegada dele? Será que em meio a todas essas pessoas não teria havido nem 144.000 que aceitariam a Cristo?

O objetivo de toda essa consideração é mostrar que, com tais palavras “reino de sacerdotes e nação santa”, Moisés não poderia ter em mente um número específico de pessoas, como as publicações da Torre de Vigia sugerem. Por qualquer ângulo que possamos analisar tais palavras, torna-se claro que o pacto anterior foi estabelecido entre Deus e um número indeterminado de pessoas. Milhões delas estavam vivas no exato momento em que o pacto foi celebrado. Não há como afirmar que esse pacto anterior tinha aplicação a um pequeno número de indivíduos.

A situação sob o ‘’novo pacto’’

Citamos a Sentinela de 1º de fevereiro de 1998, página 19, parágrafo 3, onde se afirma que apenas os 144.000 são “participantes do novo pacto”. Um simples exame do que a Bíblia diz sobre este, porém, mostra-nos facilmente quão inválida é esta ideia. Quando Paulo fez a sua consideração sobre o “novo pacto”, no livro de Hebreus, não se fez qualquer referência a um número fixo. As palavras dele, em Hebreus 8:7-12, foram:

Porque, se aquele primeiro pacto tivesse sido sem defeito, não se teria procurado lugar para um segundo; porque ele acha falta no povo quando diz: “‘Eis que vêm dias’, diz Jeová, ‘e eu concluirei um novo pacto com a casa de Israel e com a casa de Judá; não segundo o pacto que fiz com os seus antepassados no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egito, porque não continuaram no meu pacto, de modo que parei de me importar com eles’, diz Jeová.”

“‘Pois, este é o pacto que celebrarei com a casa de Israel depois daqueles dias’, diz Jeová. ‘Porei as minhas leis na sua mente e as escreverei nos seus corações. E eu me tornarei seu Deus e eles é que se tornarão meu povo.

“‘E de modo algum ensinará cada um ao seu concidadão e cada um ao seu irmão, dizendo: “Conhece a Jeová!” Porque todos me conhecerão, desde [o] menor até [o] maior deles. Porque serei misericordioso para com as suas ações injustas e de modo algum me lembrarei mais dos seus pecados.’”

É apenas e tão-somente isso que ele diz. Nada nessa discussão dá a ideia de um número fixo de pessoas e não se diz uma única palavra sobre “vida celestial”. Se isso se aplicasse apenas a um grupo de 144.000, seríamos forçados a concluir que apenas eles têm a lei de Deus ‘escrita nos corações’, apenas eles fazem parte do ‘povo de Deus’, somente eles ‘conhecem o verdadeiro Deus’ e apenas os pecados deles é que são perdoados por Deus.

Esta última declaração da carta aos Hebreus quanto a ‘Deus não levar em conta os pecados’, faz lembrar aquilo que Cristo disse, quando celebrou esse “novo pacto”. Vejamos as palavras dele, conforme o relato de Mateus 26:27, 28:

Tomou também um copo, e, tendo dado graças, deu-lhe, dizendo: “Bebei dele, todos vós; pois isto significa meu ‘sangue do pacto’, que há de ser derramado em benefício de muitos, para o perdão de pecados”.

Novamente, associa-se aqui o pacto não com alguns, e sim, com “muitos”. Não se faz uma limitação disso a um grupo específico de indivíduos. Consideramos aqui as principais referências que as Escrituras fazem aos dois pactos. Da mesma maneira que o pacto anterior se aplicava a todos os judeus, sem limitação de número, em todos os casos em que o “novo pacto” é considerado na Bíblia, tal expressão é perfeitamente aplicável a todos os que têm fé em Cristo e acreditam firmemente no valor de seu sangue redentor. Os textos citados aqui são suficientes para mostrar que a ideia de que tais pactos foram celebrados apenas com um número determinado de pessoas não é um ensino bíblico.

Deus promete aplicar a todos os que estão neste “novo pacto” o valor do sangue de Cristo, derramado em sacrifício, perdoando-lhes os pecados e concedendo-lhes vida eterna.  E, em contrapartida, todos estes se obrigam perante Deus a depositar fé nesse sacrifício e viver de acordo com esta fé. À luz de tudo o que consideramos acima, não há, e nem deve haver distinção entre os cristãos no momento em que a comemoração é realizada. Uma vez que todos estão numa relação pactuada com Deus, por intermédio de Cristo, todos devem tomar parte nela.

PARTICIPAR DA COMEMORAÇÃO DE FORMA DIGNA

Paulo escreveu em 1 Coríntios, há algumas referências adicionais à celebração. Uma vez que a Torre de Vigia apresenta um entendimento particular desses textos, em 1 Coríntios 11: 27, 28, lemos:

“Quem comer o pão ou beber o copo do Senhor indignamente, será culpado com respeito ao corpo e ao sangue do Senhor. Primeiro, aprove-se o homem depois de escrutínio, e deste modo coma do pão e beba do copo.”

Em geral, reconhece-se que esse ‘comer e beber indignamente’, refere-se à má atitude do participante durante a celebração. Assim, o livro da Torre de Vigia intitulado “Unidos na Adoração do Único Deus Verdadeiro”, capítulo 14, parágrafo 12 (páginas 114 e 115) diz:

O apóstolo Paulo escreveu conselho sério aos cristãos de Corinto, na Grécia, no primeiro século, visto que alguns deles deixaram de mostrar o devido apreço pela ocasião, dizendo: “Quem comer o pão e beber o copo do Senhor indignamente, será culpado com respeito ao corpo e ao sangue do Senhor.” O que os tornava ‘indignos’ como participantes? Eles não se preparavam devidamente no coração e na mente. Havia divisões na congregação. Alguns também entregavam-se em excesso ao comer e ao beber antes da reunião. Tratavam a Refeição Noturna do Senhor com indiferença. Não estavam em condições de discernir o significado sério do pão e do vinho. — 1 Cor. 11:17-34.

 

Se a liderança da Torre de Vigia se ativesse a estes pontos, não haveria o que discutir. Acontece que o ensino não fica só nisso. A Sentinela de 15 de março de 1991, página 21, acrescenta a seguinte ideia:

É Vital Fazer um Exame Cuidadoso

Um ponto muito significativo foi apresentado pelo apóstolo Paulo quando escreveu: “Quem comer o pão ou beber o copo do Senhor indignamente, será culpado com respeito ao corpo e ao sangue do Senhor. Primeiro, aprove-se o homem depois de escrutínio, e deste modo coma do pão e beba do copo. Pois, quem come e bebe, come e bebe julgamento contra si mesmo, se não discernir o corpo.” (1 Coríntios 11:27-29) Portanto, o cristão batizado que em anos recentes começou a achar que recebeu a chamada celestial deve dar cuidadosa consideração a esse assunto, com oração.

 

A Sentinela de 1º de abril de 1996, página 8, completa dizendo:

Se alguém, “depois de escrutínio”, descobrir que realmente não devia ter tomado os emblemas, deve passar a refrear-se disso.

Estas publicações, e muitas outras, associam ‘participar indignamente’ com a pessoa não ter recebido a “chamada celestial”. Ensina-se que o “escrutínio” significa um autoexame que a pessoa deve fazer, para averiguar se de fato recebeu essa chamada ou não. Se ela concluir que não, então não deve mais se servir dos alimentos da celebração. A ordem da Sentinela é clara: A pessoa “deve passar a refrear-se disso”.

O mais curioso é que, embora esse acréscimo muitas vezes seja feito de forma um tanto sutil e sem claro apoio bíblico, ele é que passa a ser a ideia dominante. É por isso que qualquer um que perguntar a uma Testemunha de Jeová o que significa “participação indigna” no pão e no vinho, invariavelmente ouvirá como resposta que ‘é a pessoa participar sem ser do “restante ungido”.

 

O que é a participação indigna e o escrutínio?

De acordo com o ensino da Torre de Vigia a “escolha geral” dos 144.000, que vão para o céu, começou com os apóstolos de Cristo e prosseguiu ao longo dos séculos, terminando por volta do ano de 1935 (Esse entendimento mudou). Quer estes ensinos estejam certos, quer não, permanece o fato de que eles creem que todos os primitivos cristãos esperavam ir para o céu.

Mas isso gera uma contradição: Se a esperança da pessoa era o que estava em questão, sendo o fator determinante para ela ‘participar dignamente’ dos emblemas, que necessidade tinha Paulo de escrever alguma coisa sobre ‘participação indigna’? Se todos lá tinham “esperança celestial” e uma vez que Paulo não questionou isso em momento algum, não havia entre eles qualquer diferença, ao ponto de alguns serem “dignos” de participar e outros serem “indignos” de fazê-lo. As palavras do apóstolo não teriam qualquer propósito.

Torna-se evidente então que não era a esperança daquelas pessoas que estava em discussão. Ademais, Paulo não estava questionando o direito de participação delas. O que ele disse foi que alguns daqueles cristãos (cuja esperança era celestial) ao participarem, estavam fazendo isso ‘indignamente’. Ele estava se referindo ao modo como a pessoa participava. Em outras palavras, alguns naquela época estavam participando do pão e do vinho de maneira indigna. O trecho de 1 Coríntios 11:17-22 deixa isso bastante claro. Para introduzir este assunto da “participação indigna”, Paulo se expressou assim:

‘’Na orientação que agora vou dar a vocês, eu não os elogio. Porque as suas reuniões na igreja fazem mais mal do que bem. Em primeiro lugar me contaram que há grupos de pessoas que estão brigando nas reuniões da igreja. Eu acredito que em parte isso é verdade. Não há dúvida de que é preciso haver divisões entre vocês para que apareçam os que estão certos. Quando vocês se reúnem, não é a ceia do Senhor que vocês comem. Porque quando vão comer, cada um se adianta para tomar a sua própria refeição. E assim, enquanto uns ficam com fome, outros chegam até a ficar bêbados. Será que vocês não têm as suas próprias casas onde podem comer e beber? Ou será que preferem desprezar a Igreja de Deus e envergonhar os que são pobres? O que é que esperam que eu diga a vocês? Querem que lhes dê parabéns? É claro que não vou fazer isso! ‘’ (A Bíblia na Linguagem de Hoje)

 

Qual era então o objetivo do “escrutínio” que aqueles primitivos cristãos deveriam fazer? Era para averiguar se tinham a “esperança celestial”? É claro que não, pois, como vimos, ao iniciar sua repreensão, Paulo não disse uma palavra sobre isso. Se ele estava chamando atenção para a atitude daqueles celebrantes, só poderia ser isto o alvo do escrutínio. Cada um daqueles cristãos deveria avaliar conscienciosamente sua própria atitude para com os alimentos da celebração e, se fosse o caso, mudá-la para melhor, para poder continuar participando desses alimentos.

A ideia da Torre de Vigia sobre esse “escrutínio” ou autoexame, põe a perder esse objetivo. O resultado para milhões de pessoas é exatamente o oposto do que deveria ser. Como a ideia da “esperança celestial” (limitada a um número literal de 144.000) é introduzida arbitrária e desnecessariamente neste assunto, isso confunde as Testemunhas e seus convidados. Com a mente dominada pela questão da “esperança celestial”, quando os que comparecem à Comemoração da Torre de Vigia fazem esse “escrutínio” de si mesmos, concluem que não são “dignos” de participar do pão e do vinho. Em resultado disso, na quase totalidade dos casos, o resultado do “escrutínio” é negativo! Mas não foi isso o que Paulo disse. As palavras dele foram:

“Primeiro, aprove-se o homem depois de escrutínio, e deste modo coma do pão e beba do copo.”

O autoexame era (e continua sendo) necessário no caso de todos os cristãos, mas o resultado deveria ser sempre positivo. Em momento algum Paulo disse que aquelas pessoas que estavam ‘participando indignamente’ deveriam ‘parar de participar’ (como a liderança da Torre de Vigia ordena na Sentinela citada acima).

 

‘Discernindo o que nós mesmos somos’

Em 1 Cor. 11: 29-31, lemos:

“Pois, quem come e bebe, come e bebe julgamento contra si mesmo, se não discernir o corpo. É por isso que muitos entre vós estão fracos e doentios, e não poucos estão dormindo [na morte]. Mas, se discerníssemos o que nós mesmos somos, não seríamos julgados.”

Sobre tais palavras, o número de A Sentinela de 15 de fevereiro de 1990, página 19, parágrafo 17, começa dizendo:

17 Paulo trouxe isso à atenção na sua carta aos coríntios, numa época em que alguns apóstolos ainda viviam e em que Deus chamava cristãos “para ser santos”. Paulo disse que se havia desenvolvido um mau costume entre aqueles ali que estavam sob a obrigação de tomar dos emblemas. Alguns tomavam refeições de antemão, em que comiam ou bebiam em excesso, deixando-os sonolentos, obtusos em seus sentidos. Em resultado, não podiam “discernir o corpo”, o corpo físico de Jesus representado pelo pão. Era isso tão sério assim? Sim! Por comerem indignamente, tornaram-se “culpado[s] com respeito ao corpo e ao sangue do Senhor”. Se estivessem mental e espiritualmente alertas, ‘poderiam discernir o que eram e não seriam julgados’. — 1 Coríntios 1:2; 11:20-22, 27-31.

Novamente: Se o ensino da Torre de Vigia se ativesse somente a estes pontos, não haveria o que questionar, pois, nada do que se diz acima foge do contexto bíblico. Infelizmente, mais uma vez, a Sentinela vai além. Os dois parágrafos seguintes acrescentam:

18 O que aqueles cristãos tinham de discernir e como? Primariamente, tinham de discernir no coração e na mente a sua chamada para estar entre os 144.000 herdeiros da vida celestial. Como discerniram eles isso, e devem muitos hoje crer que sejam parte desse pequeno grupo que Deus vem selecionando desde os dias dos apóstolos?

19 Realmente, apenas uma minoria bem pequena de cristãos verdadeiros hoje discerne isso acerca de si mesmos. … A vasta maioria – sim, milhões de outros leais, cristãos abençoados que se reuniram – discerniram que sua esperança válida é viver para sempre na terra.

Há um detalhe curioso aqui: O escritor da Sentinela parece presumir que aqueles cristãos estavam pensando num número literal de 144.000 e entendiam os assuntos da mesma maneira que a organização entende hoje. Isso apesar de Paulo ter-lhes enviado esta carta décadas antes de João receber a Revelação, onde esses 144.000 são mencionados pela primeira vez! Mas, mesmo que não tenha sido isso o que o escritor da Sentinela quis dizer, o fato é que as palavras do apóstolo sobre ‘discernir o que somos’, são interpretadas como significando o cristão discernir qual é o seu destino, a sua esperança. Ele pode ou ‘discernir que recebeu a chamada celestial’ ou ‘discernir que vai viver na terra’. O parágrafo 18 diz, inclusive, que foi “primariamente” este o sentido das palavras de Paulo.

Foi isso que Paulo quis dizer? Se prestarmos detida atenção a tudo o que os três versículos dizem, temos condições de entender o significado dessas duas frases. Vejamos:

1 Cor 11:29: “Pois, quem come e bebe, come e bebe julgamento contra si mesmo, se não discernir o corpo.

O que traria “julgamento” contra a pessoa? Seria ela ‘comer o pão e beber o vinho’? Dificilmente, pois todos aqueles primitivos cristãos faziam isso. Paulo explica: o julgamento adverso só viria se o cristão fizesse isso ‘sem discernir o corpo’, ou seja, se encarasse aquele pão e vinho como simples alimentos, despercebendo que eles estavam representando o corpo e o sangue de Cristo no momento da celebração. A maneira como este mesmo texto é expresso na versão abaixo deixa isso claro:

Se alguém comer do pão ou beber do cálice, sem reconhecer que se trata do corpo do Senhor, come e bebe para o seu próprio castigo. (A Bíblia na Linguagem de Hoje)

Ou seja, aqueles cristãos não deveriam encarar a celebração como simplesmente uma oportunidade de saciar sua fome em sentido físico. Foi por isso que Paulo disse no versículo 34: “Se alguém tiver fome, coma em casa, para que não vos reunais para julgamento”. Note-se que Paulo mais uma vez associa o “julgamento” com a possibilidade de alguém usar os alimentos da celebração para saciar a fome, despercebendo o verdadeiro significado deles. Ele não diz nada além disso. Isto é uma confirmação adicional de que o “julgamento contra si mesmo” (mencionado no versículo 29) nada tem que ver com a “esperança celestial”.

1 Cor 11:30: É por isso que muitos entre vós estão fracos e doentios, e não poucos estão dormindo [na morte].

Com certeza Paulo não estava falando em ‘fraqueza’, ‘doença’ e ‘morte’ literais. Não haveria o menor sentido em aquelas pessoas estarem “fracas e doentias” e muitas delas até “mortas”, simplesmente por terem ‘comido o pão e bebido o vinho’. A expressão “É por isso”, indica que esse versículo complementa o que diz o anterior: Aqueles cristãos estavam fisicamente vivos, mas estavam “fracos”, “doentios” e muitos outros estavam “mortos” em sentido espiritual porque ‘não discerniam o corpo’

1 Cor 11:31: Mas, se discerníssemos o que nós mesmos somos, não seríamos julgados.”

O que conduziria a pessoa ao julgamento?  Seria por ela achar que era “ungido” sem ser realmente, como dá a entender a Torre de Vigia? Não, a frase do texto é clara: O julgamento adverso só viria se a pessoa ‘não discernisse o que ela mesma era’. Em outras palavras: O julgamento viria não devido à pessoa “discernir errado” e sim devido à pessoa ‘deixar de discernir’.

O destino daqueles cristãos não era o que estava em discussão. Eles não tinham como “errar”, neste particular. Se todos tinham a “esperança celestial”, o “julgamento” referido por Paulo jamais poderia ser em razão de algum deles participar do pão e do vinho sem tê-la. No entanto, mesmo tendo tal esperança, alguns daqueles cristãos ainda poderiam estar deixando de discernir algo. O que?

Para entender isso, temos de pensar novamente nas palavras de Paulo ditas dois versículos antes. Em 1 Cor 11:29, ele havia falado que se a pessoa ‘não discernisse o corpo’, estaria sujeita ao julgamento. Esse ‘discernir o que somos’ referido por ele em 1 Cor 11:31 tem conexão direta com isso. O que aqueles cristãos ‘eram’? Logo no capítulo seguinte desta mesma carta aos coríntios, Paulo discutiu o assunto do “corpo de Cristo”. Em certo momento da discussão, ele disse em 1 Cor 12:27:

“Ora, vós sois corpo de Cristo e membros individualmente.”

A organização Torre de Vigia, como sempre, afirma que esta expressão “corpo de Cristo” aplica-se apenas aos 144.000. A Sentinela de 1º de fevereiro de 1992, página 14, na parte final do parágrafo 4, diz:

É privilégio das Testemunhas de Jeová ter no seu meio os últimos dos membros do corpo de Cristo, batizados pelo espírito, que servem como “escravo fiel e discreto” para prover alimento espiritual no tempo apropriado.

Mas se lermos a discussão que Paulo fez no capítulo 12 dessa primeira carta aos coríntios, não encontramos uma única indicação de que essa expressão “corpo de Cristo” só pode ser aplicada a um grupo específico. Ele simplesmente alista diversos dons que Deus pode conceder a cada membro do “corpo” e defende o relacionamento harmonioso que deve existir entre todos os membros da congregação cristã, assim como o que existe entre os membros dum corpo humano. O ensino da Torre de Vigia faz parecer que Deus concede dons espirituais apenas a um grupo de 144.000 pessoas e que são apenas as pessoas desse grupo que devem ter relacionamento harmônico entre si. As palavras de Paulo não apoiam isso de modo algum. Tudo o que ele diz lá é aplicável a todos os verdadeiros cristãos. O leitor pode conferir examinando esse capítulo da carta dele, na íntegra.

Dessa forma, quando ele falou em “discernir o que somos”, era a isso que ele se referia. Em sentido espiritual, todos os verdadeiros cristãos são membros do “corpo de Cristo”. Deixar de discernir essa condição de membro e não agir como tal é que sujeita o cristão ao julgamento adverso de Deus. Se o cristão discerne que é membro do “corpo de Cristo” e está em harmonia com os demais membros, ele terá plena condição de participar na comemoração ‘discernindo o corpo’. É isto que significa participação no pão e no vinho com discernimento.

À base de tudo o que foi discutido acima, podemos ver quão impróprio é a organização Torre de Vigia fazer esses acréscimos às palavras de Paulo, modificando radicalmente o entendimento do que ele disse em 1 Coríntios 11:27-31. A simples análise da situação daqueles primitivos cristãos, não dá qualquer fundamento para a conclusão de que somente um grupo de 144.000 pessoas pode participar do pão e do vinho com ‘dignidade’ e ‘discernimento’.

 

 

‘’COMER A CARNE E BEBER O SANGUE DE CRISTO’’

No evangelho de João, capítulo 6, versículos 48 a 58, encontramos as seguintes palavras:
Há uma interessante história relacionada com esta passagem, que ilustra muito bem os malabarismos que a organização Torre de Vigia faz muitas vezes, com o fim de sustentar suas doutrinas.

48 “Eu sou o pão da vida. 49 Vossos antepassados comeram o maná no ermo, e, não obstante, morreram. 50 Este é o pão que desce do céu, para que qualquer um possa comer dele e não morrer. 51 Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e, de fato, o pão que eu hei de dar é a minha carne a favor da vida do mundo.” 52 Portanto, os judeus começaram a contender entre si, dizendo: “Como pode este homem dar-nos sua carne para comer?” 53 Concordemente, Jesus disse-lhes: “Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. 54 Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último dia; 55 pois a minha carne é verdadeiro alimento, e o meu sangue é verdadeira bebida. 56 Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue permanece em união comigo e eu em união com ele. 57 Assim como o Pai vivente me enviou e eu vivo por causa do Pai, também aquele que se alimenta de mim, sim, esse viverá por causa de mim. 58 Este é o pão que desceu do céu. Não é como quando os vossos antepassados comeram, e, não obstante, morreram. Quem se alimentar deste pão viverá para sempre.

Anteriormente, as publicações da organização admitiam a ideia de que esse ‘comer a carne e beber o sangue de Cristo’ (conforme o versículo 53) tem paralelo com comer o pão e beber o vinho na Refeição Noturna do Senhor. Porém, uma vez que o ensino é que só os “ungidos” podem fazer isso, ensinava-se que o texto acima tinha aplicação apenas a eles. Dava-se muita ênfase à expressão “vida em vós mesmos”, como se isso significasse uma qualidade especial de vida que só os ungidos iriam possuir. Os líderes da Torre de Vigia simplesmente se recusavam a reconhecer que essa expressão não significa nada além de “vida eterna”, como o próprio Jesus torna claro logo no versículo seguinte (o 54), vida eterna esta que ele já havia dito estar disponível para “qualquer um” que comesse o “pão do céu” (conforme o versículo 50), uma referência a ele próprio.

Em outras palavras, por mais que o contexto tornasse claro que tanto a expressão ‘comer a carne e beber o sangue de Cristo’ quanto à expressão “vida em vós mesmos” tem aplicação a todos os cristãos, a Torre de Vigia não aceitava isso. Havia pessoas que questionavam fortemente o ensino, mas os líderes da organização eram inflexíveis. Eles queriam que ambas as expressões se aplicassem apenas aos “ungidos” e a ninguém mais.

Mas em 1986, eles finalmente mudaram de ideia. A Sentinela de 15 de fevereiro daquele ano oficializou isso no “estudo” e também na seção “Perguntas dos Leitores” (na página 30). Transcrevemos abaixo a pergunta e o início da resposta:

  • Referia-se Jesus apenas aos cristãos ungidos quando disse, em João 6:53: “Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos”?

Por muitos anos temos explicado que estas palavras se limitavam aos cristãos ungidos que serão levados ao céu para governar com Jesus Cristo. Contudo, um estudo adicional deste assunto recomenda uma aplicação mais ampla de João 6:53.

 

Curiosamente, no final dessa mesma “Pergunta dos Leitores”, a Sentinela diz que uma das razões da mudança foi que “maior peso foi dado, também, ao contexto imediato de João 6:53.” Ora, o “contexto imediato” sempre estivera na Bíblia, e mostrava claramente que a aplicação do texto apenas aos “ungidos”, não podia estar certa. No entanto, o ensino errado foi mantido durante “muitos anos”, até que apareceu esse “estudo adicional”.

Bem, o velho ensino estava abandonado. Agora a organização estava admitindo que “comer a carne e beber o sangue de Cristo”, bem como a expressão “vida em vós mesmos”, tem aplicação geral a todos os cristãos verdadeiros. Mas será que as demais Testemunhas de Jeová, bem como os convidados, estavam agora livres para participar do pão e do vinho na comemoração?

Não, porque os líderes fizeram o seguinte: “Desconectaram” essas palavras de Cristo do contexto da comemoração (dando ênfase ao fato de que houve uma diferença de um ano entre os dois eventos) e passaram a admitir uma única explicação para elas.

Uma boa maneira de visualizar detalhadamente o que mudou é compararmos o que dizem as duas edições do livro Raciocínios à Base das Escrituras, nas páginas 88 e 89. Uma delas é anterior à mudança feita em 1986, e a outra é posterior. Apresentamos um quadro comparativo na página seguinte (os trechos que interessam em nossa discussão estão grifados):

 

Raciocínios à Base das Escrituras (Edição de 1985)

Indica João 6:53, 54 que apenas os que participam realmente é que ganharão a vida eterna?

João 6:53, 54: “Jesus disse-lhes: ‘Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último dia.’” (Este comer e beber seria obviamente em sentido simbólico, como na Refeição Noturna do Senhor; do contrário, aquele que assim fizesse estaria violando a lei de Deus que proíbe comer sangue. Veja Gênesis 9:4; Atos 15:28, 29.)

Note que os que assim participam do pão e do vinho emblemáticos são os que hão de ganhar a recompensa da vida somente por meio de uma ressurreição. Isto se dá porque precisam renunciar à sua vida humana para alcançarem a recompensa da vida celestial com Cristo. Mas, em outra ocasião, Jesus mostrou que outros que depositarem fé nele ‘nunca jamais morrerão’. (João 11:25, 26) Revelação 7:9, 10, 14 descreve esses últimos como pessoas que se beneficiaram do sangue do Cordeiro e que são poupadas com vida na terra através da grande tribulação.

Que significa ‘terem vida em si mesmos’, conforme João 6:53 o diz? Evidentemente significa muito mais do que simplesmente viver para sempre. A expressão no texto grego é similar àquela que se acha em João 5:26, onde se faz uma consideração sobre o poder de Jesus de ressuscitar os mortos. João 5:26, segundo vertido em NTI, reza: “Como o Pai é a fonte da vida, concedeu ao Filho o poder de dar a vida.” De modo que, aqueles a quem se concedeu ter ‘vida em si mesmos’, como Cristo, terão parte com ele em transmitir à humanidade os benefícios vitalizadores do sacrifício de resgate. – Rom. 6:23; 1 Cor. 15:45.

 

 

Raciocínios à Base das Escrituras

(Edição de 1989)

Indica João 6:53, 54 que apenas os que participam realmente é que ganharão a vida eterna?

João 6:53, 54: “Jesus disse-lhes: ‘Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último dia.’” Este comer e beber teria obviamente de ser feito em sentido figurativo; do contrário, aquele que assim fizesse estaria violando a lei de Deus. (Gên. 9:4; Atos 15:28, 29) Mas, deve-se notar que a declaração de Jesus em João 6:53, 54 não foi feita com relação à inauguração da Refeição Noturna do Senhor. Ninguém que o ouviu tinha alguma idéia da comemoração com o pão e o vinho usados para representar a carne e o sangue de Cristo. Esse arranjo foi introduzido cerca de um ano depois, e o relato do apóstolo João sobre a Refeição Noturna do Senhor só começa mais de sete capítulos mais adiante (em João 14) no Evangelho que leva seu nome.

Assim, pois, como pode alguém ‘comer a carne do Filho do homem e beber o seu sangue’ em sentido figurativo a não ser por participar do pão e do vinho por ocasião da Comemoração? Repare que Jesus disse que os que assim comessem e bebessem teriam “vida eterna”. Antes, no versículo 40, ao explicar o que as pessoas precisam fazer para ter vida eterna, o que disse ele ser a vontade de seu Pai? Que “todo aquele que observa o Filho e exerce fé nele tenha vida eterna”. Portanto, é razoável que o ‘comer sua carne e beber seu sangue’ em sentido figurativo seja por se exercer fé no poder redentor da carne e do sangue de Jesus, dados em sacrifício. Exige-se que todos os que ganharão a plenitude da vida, quer nos céus com Cristo, quer no Paraíso terrestre, exerçam tal fé.

 

Comparando-se os dois textos, vemos que aquele significado da expressão “vida em vós mesmos”, que a Torre de Vigia dizia ser tão ‘evidente’ (na edição de 1985), foi abandonado e esquecido. A Refeição Noturna do Senhor não servia mais como exemplo de participação simbólica no corpo e no sangue de Cristo. Em vez disso, a expressão ‘comer a carne e beber o sangue’ foi explicada como significando unicamente “exercer fé no poder redentor da carne e do sangue de Jesus, dados em sacrifício”.

Qual é o argumento que a Torre de Vigia usa agora para provar que o pão e o vinho da comemoração não têm qualquer relação com essa expressão? A edição de 1989 do livro diz que é porque “ninguém que o ouviu tinha alguma ideia da comemoração com o pão e o vinho usados para representar a carne e o sangue de Cristo. Esse arranjo foi introduzido cerca de um ano depois…”. Essa mesma ideia foi apresentada na Sentinela de 15 de fevereiro de 1986 (tanto no “estudo” oficial que mudou o ensino, como na seção Perguntas dos Leitores).

A ênfase nisso só serve para despistar! É claro que nenhuma daquelas pessoas sabia da comemoração. Por ficarem chocadas com o que Jesus disse e não terem paciência para aguardar a explicação, foram embora. Só ficaram com ele seus apóstolos. Mas os líderes da Torre de Vigia parecem esquecer que foi Jesus quem proferiu essas palavras sobre ‘comer sua carne e beber seu sangue’ e ele sabia muito bem o que iria fazer um ano depois. As palavras que ele usou quando instituiu a comemoração repetem literalmente aquelas mesmas ideias expressas um ano antes. O fato de seus ouvintes não saberem disso no momento em que Jesus falou, não prova que uma coisa não tem relação com a outra. O paralelo entre as palavras de Cristo registradas em João 6:53 e aquilo que ele disse por ocasião da comemoração é tão evidente que até a organização Torre de Vigia aceitava isso antes.

Há ainda outra “pista falsa”, lançada na Sentinela de 15 de fevereiro de 1986. Como justificativa adicional para a ideia de que participar dos alimentos da comemoração não tem relação com as palavras de João 6:53, a revista diz no parágrafo 17, da página 20:

“Tomar dos emblemas na Comemoração não concede vida eterna.”

É claro que não! Ninguém afirma que o ato de participar do pão e do vinho em si mesmo concede automaticamente a vida eterna. Todos concordam que a vida eterna é decorrente de se exercer fé no sacrifício de Cristo. As palavras da parte final do livro Raciocínios (edição de 1989), citadas acima, não acrescentam qualquer novidade ao que todos os cristãos sempre souberam.

Observa-se, porém, que, embora Jesus já tivesse falado (em João 6:40) sobre a necessidade de se exercer fé nele, depois ele passou a usar especificamente os verbos “comer” e “beber”, em conexão com sua carne e seu sangue. Se ele já tinha deixado bem claro que as pessoas deveriam exercer fé nele, que necessidade havia de acrescentar a ideia de ‘comer sua carne e beber seu sangue’, a qual pareceu tão repulsiva para aqueles ouvintes? Há realmente alguma razão válida para não vermos nisso um paralelo evidente com os alimentos simbólicos da comemoração? Será que essa nova explicação da Torre de Vigia impede que a participação no pão e no vinho possa ser vista como uma demonstração simbólica que todo cristão faz de sua fé no sacrifício de Cristo? Se eles concluem o assunto na nova edição do livro afirmando que “exige-se que todos os que ganharão a plenitude da vida, quer nos céus com Cristo, quer no Paraíso terrestre, exerçam tal fé,” então por que proíbem a maioria destas pessoas de demonstrar isso por participar nos símbolos do corpo e do sangue dele?

Vimos que, antes de 1986 a própria organização admitia que tal simbolismo é válido. Por que seus líderes agora resistem a isso? Por que fazem agora todo esse esforço para dissociar um contexto do outro? A resposta é óbvia: Porque querem manter a todo custo o ensino sem base bíblica de que participar do pão e do vinho significa uma afirmação de “esperança celestial” e, portanto, só alguns podem participar, sendo proibidos todos os demais.

O REAL OBJETIVO DE PARTICIPAR NA CELEBRAÇÃO DA MORTE DE CRISTO

Sempre que um ensino da Torre de Vigia é contestado, a reação da liderança da organização segue o mesmo padrão. Ou as evidências que contradizem o ensino são totalmente ignoradas ou se tenta lidar com elas de modo parcial, e através do uso de argumentação tendenciosa.

Acrescente-se a isso outro método também usado com frequência pelos homens da liderança: enaltecer a organização e seus ensinos, ao mesmo tempo em que rebaixam as pessoas que estão questionando e o próprio questionamento em si, referindo-se a ambos em termos bem depreciativos.

Vejamos um exemplo. Transcrevemos abaixo o parágrafo 14 do livro Revelação ¾ Seu Grandioso Clímax Está Próximo! (capítulo 9, páginas 44 e 45):

14 Desde os dias primitivos, a congregação cristã teve de contender com apóstatas orgulhosos, os quais, com conversa suave e enganosa, “causam divisões e motivos para tropeço contra o ensino” provido por meio do canal de Jeová. (Romanos 16:17, 18) O apóstolo Paulo advertiu contra esta ameaça em quase todas as suas cartas. Nos tempos modernos, em que Jesus restabeleceu a verdadeira congregação na sua pureza e unidade cristãs, permanece ainda o perigo do sectarismo. Portanto, todos os que talvez estejam inclinados a seguir um grupo dissidente, formando assim uma seita, devem acatar as próximas palavras de Jesus: “Arrepende-te, portanto. Se não, virei a ti depressa e guerrearei com eles com a longa espada da minha boca.”  Revelação 2:16.

Logo no parágrafo seguinte a este, são dados diversos exemplos do que estaria incluído nessa “conversa suave e enganosa”. Entre as acusações feitas, encontra-se a seguinte:

Esses inventam as suas próprias ideias sobre a Comemoração da morte de Jesus.

Ora, se esses que questionam ensinos da Torre de Vigia estão na verdade questionando “o canal de Jeová”, e se o que eles dizem não passa de ‘ideias sectárias’ e de uma ‘tentativa de causar divisão e tropeço’, então nenhum cristão que se preza iria gastar tempo investigando isso, não é verdade? Por que alguém daria atenção a “ideias inventadas”, originadas na imaginação de “apóstatas orgulhosos”?

Além dessa linguagem fortemente pejorativa, seguida por uma ameaça de punição às mãos de Cristo, os dois parágrafos também se expressam em termos bem vagos. Em se tratando da Comemoração, não dizem aos leitores o que exatamente esses “apóstatas” da atualidade estão ‘inventando’. Mas não é difícil descobrir.

Mas será que argumentar que o pão e o vinho da celebração nada têm que ver com “esperança de vida celestial” e sim unicamente com o sacrifício de Cristo e que, desta forma, todos os celebrantes podem e devem participar desses alimentos, demonstrando fé no valor desse sacrifício é o mesmo que “inventar ideias sobre a Comemoração da morte de Jesus”?

Para a conveniência do leitor, reunimos aqui os principais textos bíblicos relacionados diretamente com o pão e o vinho:

João 6:48-52; 53-55:

Eu sou o pão da vida. Vossos antepassados comeram o maná no ermo, e, não obstante, morreram. Este é o pão que desce do céu, para que qualquer um possa comer dele e não morrer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e, de fato, o pão que eu hei de dar é a minha car    ne a favor da vida do mundo.”

…Concordemente, Jesus disse-lhes: “Digo-vos em toda a verdade: A menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem se alimenta de minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o hei de ressuscitar no último dia; pois a minha carne é verdadeiro alimento, e o meu sangue é verdadeira bebida.

Embora tais palavras tenham parecido chocantes para muitos, mais tarde ficou claro que esse ato de ‘comer e beber’ seria efetuado de maneira representativa. A conhecida passagem de Mateus 26:26-28 mostra isso:

Ao continuarem a comer, Jesus tomou um pão, e, depois de proferir uma bênção, partiu-o, e, dando-o aos discípulos, disse: “Tomai, comei. Isto significa meu corpo.” Tomou também um copo, e, tendo dado graças, deu-lho, dizendo: “Bebei dele, todos vós; pois isto significa meu ‘sangue do pacto’, que há de ser derramado em benefício de muitos, para o perdão de pecados”.

Numa de suas cartas apostólicas, Paulo confirmou esse mesmo entendimento. Em 1 Coríntios 10:16, encontramos estas palavras:

O copo de bênção que abençoamos, não é uma participação no sangue do Cristo? O pão que partimos, não é uma participação no corpo do Cristo?

Um pouco à frente, em 1 Coríntios 11:23-26, reafirmando a instrução de Jesus, ele disse:

Pois eu recebi do Senhor o que também vos transmiti, que o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou um pão, e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: “Isto significa meu corpo em vosso benefício. Persisti em fazer isso em memória de mim.” Ele fez o mesmo também com respeito ao copo, depois de tomar a refeição noturna, dizendo: “Este copo significa o novo pacto em virtude do meu sangue. Persisti em fazer isso, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.” Pois, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este copo, estais proclamando a morte do Senhor, até que ele chegue.

 

Mas ele deu um alerta com referência à atitude dos celebrantes. Foi por isso que disse em 1 Coríntios 11:27-29:

Consequentemente, quem comer o pão ou beber o copo do Senhor indignamente, será culpado com respeito ao corpo e ao sangue do Senhor. Primeiro, aprove-se o homem depois de escrutínio, e deste modo coma do pão e beba do copo. Pois, quem come e bebe, come e bebe julgamento contra si mesmo, se não discernir o corpo.

Todas estas referências bíblicas são muito consistentes em associar esse pão e vinho unicamente com a ‘recordação de Cristo’ e a ‘proclamação da morte sacrificial dele’. A “vida eterna” e o “perdão de pecados” estão disponíveis para “qualquer um” que depositar fé neste sacrifício e simbolizar isto por ‘comer o pão e beber o copo’, fazendo-o de maneira digna e com discernimento.

Devemos nos perguntar: O que exige mais esforço da imaginação: Aceitar o que estes textos dizem claramente ou extrair deles a ideia de que participar no pão e no vinho significa obrigatoriamente que a pessoa vai para o céu? É justo acusar os que não concordam com a limitação da participação a um grupo de 144.000 de estarem “promovendo seita”, colocando-os na condição de merecedores da punição divina, caso não se ‘arrependam’? À luz do que os textos acima dizem, quem é que está realmente ‘inventando suas próprias ideias sobre a Comemoração da morte de Jesus’? Que o leitor reflita cuidadosamente acerca destas questões.

Baseado no livro: As Testemunhas de Jeová e a Comemoração da Morte de Cristo, de Miguel Servet Jr.